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Consórcio Explicado
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Anuário ABAC 2026: o ano em que o consórcio virou o segundo banco da casa dos brasileiros

O Anuário ABAC 2026 saiu hoje e conta uma história: 13 milhões de gente trocando juros por planejamento. Por que 2025 foi recorde e o que esperar de 2026.

Atualizado em
Rodrigo Freitas

Rodrigo Freitas

Engenheiro (UNESP) · CPA-20 (ANBIMA) · Cofundador de fintech · 20+ anos em tecnologia financeira

Mesa de escritório em São Paulo com gráficos impressos de barras crescentes, nota azul turquesa de R$100 e caneta sob luz dourada do fim de tarde
O Anuário ABAC 2026 consolida o que os boletins mensais já sinalizavam: 2025 fechou como o melhor ano da história do consórcio

Felipe tem 41 anos e uma transportadora pequena em Itaquaquecetuba. Em 2023, ele financiou o primeiro caminhão num banco grande. Levou o veículo pra casa no mesmo dia e passou três anos olhando o boleto chegar com juros que ele não entendia direito. No fim de 2025, sentou com a contadora pra fechar o ano e descobriu que tinha pago, em juros, quase metade do valor do caminhão. Só em juros.

Quando precisou do segundo veículo, em janeiro, não foi mais no banco. Entrou num grupo de consórcio. E não foi sozinho.

O Anuário ABAC 2026, publicado pela associação nesta quarta, conta a história do Felipe vezes treze milhões. É o relatório que fecha o ano-base 2025 com selo de auditoria do Banco Central, e a leitura é simples: foi o melhor ano da história do produto. Por uma margem que faz qualquer planilha tremer.

Quatro números, uma história

A ABAC podia ter despejado trinta indicadores. Despejou. Mas se você quer guardar a essência do Anuário ABAC 2026 em quatro números, são esses:

Meio trilhão de reais em créditos comercializados. Cinco milhões de cotas novas. Quase 1,8 milhão de famílias contempladas. E o ticket médio, que é a carta de crédito que o brasileiro mediano está comprando, fechou em torno de R$ 87 mil.

Esse último número é o mais revelador. Em dezembro de 2024, a carta média rodava na casa dos R$ 78 mil. Subiu mais de 10% em doze meses. Quer dizer que não é mais o consórcio do liquidificador, da TV, da geladeira. O brasileiro entra no grupo querendo apartamento, carro novo, serviço de alto valor. Usa o consórcio como banco de planejamento, não como prateleira de eletrodoméstico.

Painel com seis números-chave do Anuário ABAC 2026: 5,16 milhões de cotas vendidas, R$ 500 bilhões em créditos, 1,77 milhão de contemplações, R$ 123 bilhões liberados, 12,76 milhões de participantes ativos e ticket médio de R$ 86,7 mil em dezembro de 2025
Os seis indicadores que resumem o ano-base 2025 no Anuário ABAC 2026

E tem o número que dá vertigem: 12,76 milhões de pessoas estavam num consórcio em dezembro. Mais gente do que mora em Portugal inteiro. Em março de 2026, o boletim mensal já apontava 12,93 milhões. O sistema deixou de ser produto de nicho e virou infraestrutura do crédito brasileiro.

O vilão da história tem nome

Pra entender por que esse povo todo entrou num grupo, é preciso olhar pro outro lado do balcão. E o outro lado tem nome: financiamento bancário.

Bruna terminou a faculdade ano passado e queria trocar o notebook. Foi no cartão, simulou parcelado em 12 vezes — e desistiu quando viu a taxa. O cartão de crédito brasileiro fechou 2025 em torno de 440% ao ano no rotativo. Não é digitação errada. É o número que o Banco Central divulga todo mês, e que o cartão consegue cobrar porque a maioria não compara.

No imóvel, o filme é parecido. Quem financiou R$ 400 mil pela Caixa este ano, na linha balcão, vai pagar perto de R$ 1 milhão em 30 anos. Mais de R$ 600 mil só de juros. No mesmo prazo, num consórcio com taxa de administração de 18% diluída, o custo total beira R$ 470 mil. A diferença não compra um carro popular — compra dois, e ainda sobra dinheiro pra reforma.

Foi essa conta que fez o Felipe trocar o banco pelo consórcio. Foi essa conta que fez a Bruna abrir um grupo de eletro pra trocar de notebook sem juros. Multiplicada por cinco milhões de brasileiros, foi ela que fechou 2025 como recorde.

O financiamento não morreu — continua sendo a opção certa pra quem precisa do bem hoje, sem espera. Mas ele virou caro demais pra quem tem planejamento. E o consórcio, que pede paciência, colhe quem está disposto a esperar.

Quem subiu, quem caiu

O sistema cresceu, mas não cresceu igual. Tem segmento que disparou, tem segmento que andou no ritmo do ano, e tem um que afundou.

Eletroeletrônicos foi a surpresa absoluta. A própria ABAC tinha projetado um avanço perto de 23% — veio mais que o dobro. É a categoria da Bruna, do notebook, do home office, do iPhone parcelado sem cartão. E o ticket médio do segmento explodiu, sinal de que não é mais batedeira de bolo: é equipamento caro, é gente trocando de carteira pra trabalhar por conta e equipando casa pra isso.

Imóveis manteve o trono em valor. Sozinho, o segmento movimentou mais da metade de tudo que o sistema fez em 2025 — algo perto de R$ 283 bilhões. Em ritmo, subiu mais de um terço no ano. O ticket médio só do imobiliário passa de R$ 190 mil. Outro patamar.

Gráfico de barras horizontais comparando crescimento das adesões por segmento de consórcio em 2025: eletroeletrônicos +51%, imóveis +36,2%, serviços +16,9%, veículos leves +9,4%, motos +8,3%, pesados -15%
O sistema cresceu 15% no agregado, mas a distribuição entre segmentos foi muito desigual

Serviços (reforma, viagem, festa, saúde) cresceu em ritmo bom. Carros e motos avançaram comportados, com altas de um dígito alto. Em volume absoluto continuam sendo gigantes — só o segmento de leves passou de 5 milhões de gente ativa em dezembro. É mais consorciado de carro do que habitante em Salvador.

E aí tem o segmento que destoou. Pesados — caminhão, ônibus, máquina agrícola — afundou 15% no ano. É o único negativo do Anuário ABAC 2026. A causa não é mistério: a crise no agronegócio bateu forte. Inadimplência recorde dos produtores rurais, queda nas commodities, seca em região de soja. Transportadora segurou frota, agricultor adiou trator. Foi o Felipe, do começo do texto, comprando contra a corrente.

O que tirou 2025 do chão

O motor principal foi a Selic, que ficou cravada em 15% ao ano entre meados de 2025 e o começo de 2026. Quando o juro básico está nesse patamar, todo financiamento fica caro: imóvel passa de 11%, carro passa de 26%, cartão flerta com a estratosfera. O consórcio, que cobra taxa de administração diluída e não tem juros compostos, vira refúgio óbvio. Não é coincidência que o setor tenha crescido junto com a Selic alta. Cresceu por causa dela.

Mas juro alto sozinho não faz milagre — precisa de gente com emprego e capacidade de assumir parcela. E aqui veio o segundo empurrão: o desemprego fechou 2025 no menor nível da série histórica do IBGE. Mais brasileiro com carteira assinada significa mais gente que pode esperar dois, três, cinco anos sem se desesperar pelo bem. Consórcio premia quem tem horizonte, e em 2025 sobrou horizonte.

A terceira peça foi confiança das próprias administradoras. O índice que mede esse humor está na segunda melhor marca da história, e isso vira mais grupos abertos, mais campanhas, mais cota disponível. Quem entende como funciona um consórcio sabe que isso é estrutural: sem grupo aberto não tem onde entrar.

O primeiro trimestre já mostrou que 2025 não foi pico

Quem imaginou que 2025 era o teto do ciclo precisa rever. O boletim ABAC de março fechou o trimestre com adesões 12% acima do mesmo período do ano recorde. Os créditos já passaram de R$ 129 bilhões nos três primeiros meses.

A aceleração veio dos mesmos suspeitos: imobiliário continua bombando, eletro anda ainda mais rápido do que andava em 2025. No primeiro bimestre, eletro avançou mais de 60%. Imóveis seguiu acima dos 30%. Quem está olhando de fora pode achar que é bolha — mas o pano de fundo continua: Selic alta, emprego forte, financiamento caro. Enquanto essas três peças não mexerem, o consórcio tem motor.

O que vem por aí (e por que a ABAC está conservadora)

Aqui o anuário muda de tom. Em 25 de março, o COPOM cortou a Selic pela primeira vez depois de seis meses parada. Em 29 de abril, cortou de novo, levando a taxa básica pra 14,5% — segundo corte unânime e consecutivo, segundo a Agência Brasil. O mercado precifica Selic em 12,5% até o fim do ano.

A ABAC projeta um 2026 ainda forte, mas mais comportado. Crescimento de 11% pro sistema, com imóveis liderando. Eletro seguindo bem, serviços avançando, leves e motos no ritmo do ano passado. Pesados estável, ainda esperando o agro reagir.

A lógica é direta. Conforme a Selic cair, o financiamento volta a ficar competitivo. Hoje, num imóvel de R$ 400 mil, a diferença entre consórcio e financiamento beira meio milhão de reais ao longo de 30 anos. Quando a Selic chegar perto de 10% — improvável em 2026, plausível em 2027 — essa diferença encolhe. Não desaparece. Mas encolhe. E o consórcio deixa de ser quase obrigatório pra virar uma opção entre outras.

Vale lembrar que o consórcio imobiliário cresceu quase três vezes em seis anos, segundo a ABECIP. Já responde por perto de um quarto de todos os imóveis financiados no Brasil. Esse pedaço de mercado não vai sumir com a Selic em queda — pode mudar de cara, mas se consolidou.

O que isso significa pra quem está pensando em entrar

A primeira mudança é o tamanho das cartas. O ticket médio subiu, e se o seu plano envolve um bem de R$ 80 mil pra cima — apartamento, carro novo, serviço de alto padrão — você está exatamente no segmento que mais cresce. Encontra grupo aberto sem dificuldade.

O lado complicado dessa boa notícia: grupo cheio significa assembleia concorrida. Cinco milhões de cotas novas em 2025 viraram brasileiros disputando contemplação. Se você conta com lance pra antecipar, esquece os 10% ou 15% que funcionavam cinco anos atrás. Em grupo grande, lance só sobe se for forte — perto de 25% a 30% da carta. Quem não pode dar lance forte vai pelo sorteio, e o prazo escolhido vira o ponto crítico da decisão.

E tem a janela. Ela ainda está aberta, mas vai estreitando. Com a Selic em 14,5% e caindo, o gap entre consórcio e financiamento começa a encolher. Hoje a diferença ainda é gritante — quem rodar a conta no comparador de consórcio vs financiamento vê na hora, e o comparativo completo detalha cenário a cenário. Daqui a um ano ou dois, com Selic em 10% ou menos, a conta aperta. Quem quer aproveitar o melhor momento do produto entra agora.

Pra fechar: rode os números no simulador de consórcio antes de assinar qualquer cota. Taxa de administração, fundo de reserva e seguro variam bastante entre administradoras — e a economia real só aparece quando você compara dois ou três cenários com a sua carta, no seu prazo. O Felipe rodou. A Bruna rodou. Os outros 13 milhões também.

Perguntas frequentes

O que é o Anuário ABAC 2026?

É o relatório anual da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios que fecha o ano-base 2025 com dados auditados pelo Banco Central. Traz cotas, créditos, contemplações, ticket médio por segmento e projeções pro ano corrente. Foi lançado em 27 de maio.

Quantos brasileiros estavam num consórcio em 2025?

Quase 13 milhões. Em dezembro eram 12,76 milhões de participantes ativos, e o boletim de março de 2026 já apontava 12,93 milhões.

Quanto o sistema movimentou em 2025?

Meio trilhão de reais em créditos comercializados — alta acima de 30% sobre 2024. E mais de R$ 123 bilhões foram liberados em cartas de crédito pros contemplados ao longo do ano.

Qual segmento mais cresceu?

Eletroeletrônicos, com avanço acima de 50% em adesões — mais que o dobro da projeção que a própria ABAC tinha feito. Imóveis veio em segundo, com alta de mais de um terço. O único segmento negativo foi pesados, que recuou por causa da crise no agro.

O que esperar do consórcio em 2026?

Crescimento ainda forte, mas mais comportado. A ABAC projeta avanço de 11% no sistema, com imóveis e eletro puxando. O principal risco é a queda da Selic, que vai tornando o financiamento competitivo e reduzindo o gap que favorece o consórcio hoje.

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