O segmento que ninguém olhava cresceu o dobro do que a ABAC esperava — e quem está entrando é o pessoal que faz vídeo, código e home office
Consórcio de eletro cresceu o dobro da projeção em 2025 e o ticket triplicou. Por que editor de vídeo e dev remoto estão entrando — e quando NÃO compensa.
Engenheiro (UNESP) · CPA-20 (ANBIMA) · Cofundador de fintech · 20+ anos em tecnologia financeira
Diogo abriu o app do banco na sexta de manhã, deu uma olhada na fatura do cartão e sentiu o estômago revirar. Ele edita vídeo de freelance há três anos, ganha bem nos meses bons, ganha mal nos meses ruins, e o MacBook dele tá agonizando — começou a travar no Premiere, esquenta no Final Cut, o disco vive cheio. Precisa trocar. Olhou um modelo novo, viu R$ 22 mil, fez a conta mental do cartão e desistiu na hora. Foi pesquisar consórcio.
Diogo não é exceção. Em 2025, o brasileiro descobriu que dá pra entrar num consórcio só pra comprar equipamento. E entrou em peso.
O Anuário ABAC 2026 fechou o ano-base 2025 com o dado que ninguém esperava: o segmento de eletroeletrônicos cresceu mais do que o dobro do que a própria ABAC tinha projetado. A associação apostava em 23%. Veio 51%. Foi a maior surpresa do sistema. Quem quiser o retrato completo do ano pode olhar o resumo do Anuário ABAC 2026 com os números macro.
O que tirou esse pessoal da inércia
A resposta cabe num parágrafo, e o nome do culpado é cartão de crédito.
O Banco Central divulga todo mês os juros do crédito brasileiro, e os números de novembro de 2025 dão arrepio. O cartão parcelado fechou em 181% ao ano. O rotativo — aquele que liga quando você não paga a fatura toda — bateu 440% ao ano segundo o BACEN. Cheque especial passa de 400% no acumulado anual. Crediário de loja gira em 2,5% ao mês, o que dá quase 35% ao ano. Quando o Diogo abriu a calculadora pra parcelar o MacBook no cartão, viu que ia gastar uns 50% a mais no fim — e isso só não foi pior porque o limite dele não comportava 12 vezes seguidas.
Aí entrou o segundo empurrão: a Selic ficou em 15% ao ano durante meses, só começou a ceder em março de 2026 e hoje está em 14,5% após dois cortes consecutivos do COPOM. Com a Selic nesse patamar, todo crédito bancário fica caro. Empréstimo pessoal, CDC, financiamento de eletrônico pelo banco — tudo subiu. Quem precisava de R$ 15 mil pra um notebook bom passou a olhar pro lado.
E o terceiro empurrão é cultural. O trabalho remoto e híbrido virou regra, não exceção, e isso significa equipamento profissional em casa. Editor de vídeo precisa de máquina topo de linha. Desenvolvedor remoto precisa de notebook que aguenta compilar, monitor decente, cadeira que não destrói a coluna. Streamer precisa de placa boa e setup completo. Esse pessoal, que cinco anos atrás ia na Casas Bahia trocar a TV, hoje está montando estação de trabalho de R$ 20 mil. E nenhum deles quer pagar 181% ao ano por isso.
Não é mais geladeira e fogão
O número mais revelador do Anuário não foi o crescimento. Foi o ticket médio.
Em dezembro de 2024, a carta média do segmento valia perto de R$ 8 mil. Suficiente pra uma TV de 65 polegadas, uma geladeira frost-free decente, um notebook básico. Era a carta do brasileiro que ia equipar a sala ou trocar o eletrodoméstico velho. Em dezembro de 2025, virou perto de R$ 22 mil. Praticamente triplicou em doze meses.
Esse pulo conta uma história sozinho. Vinte e dois mil reais não compram geladeira — compram MacBook Pro com chip novo, notebook gamer com placa dedicada, iPhone Pro Max de R$ 12 mil mais acessórios, ou um setup completo de home office com monitor 4K, cadeira ergonômica boa e fones com cancelamento ativo. É outro público comprando outro tipo de bem.
A ABAC tinha projetado 23% de avanço pro segmento em 2025. O sistema entregou 51%. Entraram cerca de 200 mil cotas novas no ano, contra 133 mil em 2024. Os créditos comercializados saltaram de quase R$ 1 bilhão pra mais de R$ 2,3 bilhões. E a aceleração concentrou no fim do ano: a média mensal de adesões dobrou nos dois últimos meses. Black Friday e ceia de fim de ano explicam parte. O resto explica o Diogo.
A conta do notebook de R$ 15 mil
Vamos por Lara no lugar do Diogo por um momento. Lara é desenvolvedora remota, mora numa cidade média do interior, ganha bem mas sem CLT — é PJ. Precisa de notebook novo pra trabalhar. Olhou um modelo bom por R$ 15 mil. Tem quatro caminhos pela frente, e cada um conta uma história diferente.
No cartão parcelado em 12 vezes sem juros, ela paga R$ 1.250 por mês durante um ano, e o notebook chega em casa amanhã. Total no fim: R$ 15 mil, igualzinho ao preço de tabela. Só que vira refém da fatura — o limite de R$ 15 mil fica comprometido o ano todo, e qualquer emergência ela paga pelo rotativo a 440%. Funciona se o limite dela for folgado. Não é o caso da maioria.
No CDC da loja, em 24 vezes a 2,5% de juros ao mês, sai por uns R$ 833 mensais. Total acumulado: perto de R$ 20 mil. Cinco mil a mais só de juros, em troca de levar o notebook hoje. É o caminho que a vendedora oferece quando o cartão não comporta. E é o caminho que mais aperta o bolso.
No CDB de banco grande, 100% do CDI, ela investe R$ 625 por mês durante 24 meses. No fim, com o CDI em 14,4%, sobram uns R$ 16.700 líquidos depois do imposto. Compra o notebook à vista e ainda guarda troco. Único problema: exige disciplina de monge — dois anos sem tocar no dinheiro nem em emergência, nem em viagem, nem em conta atrasada. Quem consegue, ganha. Quem não consegue, fracassa antes do mês 12.
No consórcio de 36 meses com taxa total de 18%, a parcela fica em R$ 491 por mês. Total pago no fim do plano: R$ 17.700. Custa R$ 2.700 a mais do que o preço de tabela — bem menos do que o CDC, bem mais do que o cartão parcelado sem juros. O notebook chega quando o sorteio resolver, e isso pode acontecer no mês 2 com lance forte ou no mês 30 sem lance. O dinheiro do grupo fica protegido em fundo segregado regulado pelo BACEN, separado do caixa da administradora — se ela quebrar, o grupo migra pra outra e o dinheiro segue lá.
A escolha não é matemática pura. Quem tem limite folgado e topa pagar 12 parcelas firmes, cartão sem juros vence. Quem tem disciplina de poupança forte, CDB ganha. Quem precisa hoje e o cartão não comporta, CDC é o caminho — mas com R$ 5 mil de pedágio. E quem topa esperar, não quer mexer no limite e gosta de poupança forçada, o consórcio entra como alternativa séria. Foi o que a Lara escolheu.
Quando consórcio de eletrônicos NÃO compensa
Tem hora que o consórcio é furada, e o ponto crítico desse segmento tem nome: depreciação.
Eletrônico perde valor numa velocidade que outros bens não conhecem. Um iPhone topo de linha perde cerca de 17% no primeiro ano de uso. Modelos Android premium caem mais de 30% no mesmo período. Em três anos, qualquer celular já cedeu uns 60% a 70% do valor de revenda. Notebook tá no mesmo time — perde uns 20% ao ano, e o ciclo de obsolescência técnica fica mais curto a cada geração.
Isso muda a conta do consórcio. Se você entra num plano de 36 meses e é contemplado lá no mês 30, o modelo que você queria comprar hoje já estará umas duas ou três gerações atrás quando a carta finalmente sair. O Pro Max de 2026 vai parecer datado em 2029. O notebook com placa de geração atual vai estar modesto perto do que sai no fim do prazo.
Por causa disso, três situações onde o consórcio de eletro não é o melhor caminho. Pra bem abaixo de R$ 8 mil, o CDB de banco grande quase sempre bate — o rendimento líquido cobre o item antes da contemplação chegar, e você tem flexibilidade de comprar à vista quando quiser. Pra quem precisa do equipamento agora pra trabalhar, sem condição de esperar nem dar lance forte, o cartão sem juros ou até o CDC fazem mais sentido — perder dois anos esperando contemplação não é opção quando o cliente paga pelo prazo. E pra quem fica ansioso com obsolescência, o consórcio de prazo longo é ruim emocionalmente: o produto que chega não é o produto que foi sonhado.
A regra é direta. Se você tem disciplina, prazo e tolerância pra esperar, consórcio funciona muito bem na faixa de R$ 10 mil a R$ 30 mil — bate o CDC com folga e perde só pro cartão sem juros, que nem sempre é viável. Fora dessa faixa, o jogo muda. Tem mais sobre essa lógica em consórcio ou investir e nas regras gerais de o que é consórcio.
Os players e o que vem por aí
A onda chegou puxada por quem entendeu o público novo antes dos outros. O Magalu, pela Luiza Administradora, foi o mais agressivo — colocou o consórcio no checkout, integrou com a rede de lojas físicas e virou referência pra carta de eletro. O Banco do Brasil vendeu cerca de R$ 1 bilhão só nesse segmento em 2025. Casas Bahia trabalha em parceria com o Magalu. Gazin segue o ritmo. Cada um traz um canal de distribuição forte — gente que já confia na marca, encontra o produto na hora da compra e fecha sem fricção. Foi assim que a média de adesões dobrou em novembro e dezembro.
Pra 2026, a ABAC projeta crescimento de 20% no segmento — segunda maior projeção setorial do ano, atrás só de imóveis com 25%. Pode parecer modesto perto dos 51% de 2025, mas vem de uma base já 51% maior. Em adesões absolutas, o segmento pode passar de 240 mil cotas — patamar que era impensável há dois anos.
O risco no horizonte é a Selic continuar caindo. O mercado precifica taxa em 12,5% no fim de 2026, e isso faz o crédito bancário tradicional voltar a competir aos poucos. Só que cartão a 181% e rotativo a 440% não vão cair em ritmo proporcional à Selic — eles têm vida própria, e essa vida segue muito acima de qualquer juro básico razoável. O consórcio de eletro vai continuar tendo espaço, especialmente na faixa de R$ 10 mil a R$ 30 mil que dominou o ano.
Antes de assinar qualquer cota, vale comparar pelo menos duas ou três administradoras — a taxa de administração varia de uns 11% no BB a mais de 24% em planos curtos do varejo, e isso faz diferença real no bolso. O simulador de consórcio roda a conta com os seus valores, no seu prazo, e ajuda a ver na hora qual cenário compensa.
Perguntas frequentes
Consórcio de eletroeletrônicos é só pra celular e notebook?
Não. O segmento da ABAC inclui também eletrodoméstico da linha branca, TV e som, móveis e outros bens duráveis. Mas o salto do ticket médio em 2025 mostra que a maioria das cartas novas está indo pra equipamento de valor médio-alto — celular top, notebook profissional, setup de home office. A vó comprando geladeira a prazo ainda existe, só não é mais a maioria.
Posso ser contemplado logo no primeiro mês?
Pode, sim — basta dar lance forte o suficiente pra ganhar a assembleia. Como os valores absolutos no segmento de eletro são menores do que em imóvel ou carro, a competição também é menor. Quem entra com 15% a 20% de lance embutido costuma antecipar a contemplação com boa chance.
E se a administradora quebrar, perco o dinheiro?
Não. Toda administradora de consórcio é fiscalizada pelo BACEN e mantém o dinheiro do grupo em fundo segregado — uma conta separada do caixa da empresa. Se a administradora falir, o grupo é transferido pra outra administradora e o dinheiro continua disponível. Essa proteção tá na Lei 11.795/2008 e é o que separa consórcio sério de pirâmide.
Quando o cartão sem juros vence o consórcio?
Quando você tem limite folgado, fluxo de caixa estável pra pagar 12 parcelas seguidas sem aperto, e precisa do produto agora. Doze por R$ 1.250 em cartão totaliza R$ 15 mil — o mesmo do preço à vista. Consórcio do mesmo valor sai por R$ 17.700 em 36 meses. Cartão ganha em custo se você consegue sustentar; perde em flexibilidade porque amarra o limite por um ano.
A carta de crédito serve em qualquer loja?
Depende da administradora. No Magalu, a carta é usada na rede Magazine Luiza e Casas Bahia. No BB Consórcio, costuma valer em qualquer loja credenciada. Em consórcios de varejo, vale só na própria rede. Sempre checar essa regra no contrato antes de assinar — uma carta restrita pode parecer boa no preço e ruim na hora de usar.
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