Consórcio de veículos pesados caiu 15% em 2025: o único segmento no vermelho — e por que 2026 pode ser oportunidade pra quem entra agora
O agro travou e o caminhão sentiu. Consórcio de pesados caiu 15% em 2025 — único segmento no vermelho. Por que 2026 pode ser a melhor janela pra entrar.
Engenheiro (UNESP) · CPA-20 (ANBIMA) · Cofundador de fintech · 20+ anos em tecnologia financeira
O Adilson é caminhoneiro autônomo em Maringá, Paraná. Roda soja e milho pelo corredor de Paranaguá há dezoito anos. O Scania dele tem oito anos rodados, manutenção mensal subindo, e em janeiro de 2025 ele decidiu que era hora de trocar. Foi na concessionária, fez três simulações de financiamento, recebeu três respostas parecidas e voltou pra casa sem assinar nada. Sentou na varanda, contou no caderno o quanto o banco queria de juro, olhou pra mulher e disse: “Vamos segurar mais um ano.” Segurou. E não foi o único.
O Anuário ABAC 2026, publicado em 27 de maio, mostrou que o consórcio de veículos pesados foi o único segmento que fechou no vermelho em 2025. Enquanto eletro disparou, imóvel surfou a fuga do financiamento e até moto cresceu, caminhão e ônibus encolheram 15%. Foram cerca de 198 mil cotas vendidas, contra 233 mil no ano anterior. O resto do sistema bombou. Pesado encolheu.
O segmento que ficou de fora da festa
O sistema de consórcio fechou 2025 com o melhor ano da história da ABAC: mais de cinco milhões de cotas vendidas e créditos comercializados na casa de meio trilhão de reais. Dentro desse recorde existe uma assimetria gritante. Eletroeletrônicos saltou mais de 50%, num movimento que ninguém previu. Imóvel subiu 36% porque a Selic em 15% empurrou comprador de apartamento pra fora do financiamento. Carro de passeio fez 9%, moto fez 8%. Pesado fez menos 15%.
A leitura preguiçosa diria que o setor está em crise. Não está. O volume financeiro de cartas comercializadas em pesados na verdade cresceu — quem entrou pagou mais caro pela cota. Menos gente, ticket maior.
E isso conta uma história. Quem comprou caminhão por consórcio em 2025 não era o autônomo de carteira justa nem o pequeno produtor com dois caminhões na fazenda. Era frotista de transportadora maior, comprando cavalo mecânico topo de linha, bitrem, conjunto pra longa distância. O Adilson e os pequenos sumiram da estatística. Os grandes ficaram.
A equação do agro que travou a roda
Pra entender por que sumiu o pequeno, o caminho passa pelo agro. Pesado no Brasil é, em boa parte, frota agrícola e logística rural. Se o produtor não consegue pagar a colheita, não troca caminhão. Se o transportador não tem frete sobrando, também não troca.
A safra foi ruim em pedaços importantes do Brasil. O Rio Grande do Sul ainda digeria o prejuízo da enchente de 2024 em 2025. O cerrado teve quebra. O preço da soja e do milho na bolsa internacional caiu. Quem planta paga em dólar pelos insumos e recebe na cotação da arroba ou da saca — a conta não fechou.
A inadimplência no crédito rural multiplicou por vinte em dois anos. Em 2023 era abaixo de 1%. Em outubro de 2025 chegou a 11,4%, segundo o BACEN. Os pedidos de recuperação judicial no agro bateram recorde com quase dois mil casos em 2025, segundo levantamento da Serasa Experian. Produtor endividado não troca caminhão.
E a transportadora profissional fez o mesmo movimento. O diesel ficou caro o ano inteiro, oscilando perto de seis reais por litro. A ANTT atualizou o piso mínimo de frete várias vezes, mas o frete efetivo seguiu apertado por causa da concorrência informal. Margem pequena, transportadora fica com o caminhão usado e reforma o motor em vez de trocar.
Tem outro lado dessa história
A Cláudia toca uma transportadora pequena em Londrina. Três caminhões, herdou do pai. Em outubro de 2025, com o setor todo segurando investimento, ela fez o contrário: entrou num consórcio de carta perto de R$ 400 mil pra trocar o caminhão mais velho em três anos. O contador disse que ela estava louca. Os colegas disseram que era hora de esperar. Ela fez assim mesmo, com argumento simples: “Quando todo mundo quiser, eu já vou estar comprando.”
Esse é o ponto que o Anuário deixa nas entrelinhas. A queda de adesões deixa os grupos menos cheios. Administradora com cota vazia tem incentivo pra preencher. Lance que em 2023 não passava de jeito nenhum, em 2026 entra. A Rodobens fechou o ano com vendas totais em recorde histórico — perto de vinte bilhões — puxando esse cliente médio maior que encontrou cota disponível.
Pra quem entra agora, o jogo é favorável. Lance mais barato. Cota maior disponível. Administradora oferecendo redução de taxa nos primeiros meses ou contemplação garantida no primeiro lance pra fechar grupo. Vale comparar três ou quatro propostas antes de assinar — a diferença entre administradoras pode chegar perto de R$ 20 mil no custo final de uma carta grande.
A conta do caminhão de R$ 350 mil
Vamos botar números no papel pra um Scania ou Volvo zero saindo por R$ 350 mil — média do que o Adilson e a Cláudia estavam olhando.
No consórcio em 72 meses, com a taxa de administração diluída em torno de 16%, a parcela sai perto de R$ 5.600 e o custo total fica em torno de R$ 406 mil. Sem entrada obrigatória, sem juros — só taxa de administração e fundo de reserva.
No Move Brasil 2, que é a linha do BNDES pra renovação de frota com juros mais baixos lançada em abril de 2026, dá pra fechar a 11% ao ano em 60 meses com uma entrada de cerca de R$ 70 mil. A parcela fica perto de R$ 6.250 e o custo total chega perto de R$ 444 mil. Mais caro que o consórcio em pouco menos de R$ 38 mil, mas com o caminhão na garagem amanhã. O programa dobrou o crédito disponível pra R$ 21 bilhões na segunda rodada, e a primeira rodada esgotou R$ 10 bilhões em dois meses.
E aí tem o banco PJ comum, sem subsídio nenhum, cobrando perto de 28% ao ano. No mesmo prazo e mesma entrada, a parcela vai pra perto de R$ 7.800 e o custo total bate R$ 536 mil. O caminhão dobra de preço no papel.
A diferença entre consórcio e banco é R$ 130 mil. Dá pra comprar um caminhão usado de bom porte com o que sobra. Mesmo contra o Move Brasil 2, o consórcio fica perto de R$ 38 mil à frente. O Move Brasil ganha em uma coisa só: previsibilidade. Você assina hoje, recebe o caminhão amanhã. O consórcio exige contemplação por sorteio ou lance. Pra quem precisa rodar agora porque o frete está contratado, o tempo manda. Pra quem tem horizonte de doze a vinte e quatro meses, o consórcio paga melhor.
Por que 2026 pode ser a janela
A leitura honesta do Anuário é essa: pesado não vai liderar 2026. A própria ABAC projeta crescimento próximo de zero pro segmento, contra um sistema que deve avançar perto de 11% no agregado. A associação foi explícita: não espera recuperação significativa enquanto o agro não reequilibrar as contas, e isso deve levar mais um ano.
Mas estabilidade depois de queda de 15% significa que o setor encontrou o piso. Quem entra agora pega o ponto de virada. A CNA estima que o produtor que está renegociando dívida hoje volta a investir entre o fim de 2026 e 2027. Quando voltar, vai precisar trocar frota. E quem está no consórcio desde 2026 estará na fase de contemplação no pico da demanda. Em vez de comprar carta com mercado parado, usa a carta com mercado aquecido. É o oposto do que o autônomo médio fez em 2025.
O Copom já cortou a Selic duas vezes em 2026 — de 15% pra 14,75% em março e pra 14,5% em 29 de abril. O Focus projeta perto de 12,5% até dezembro. Juro caindo libera capital pra investimento produtivo. Empresa volta a expandir. Demanda por frete sobe. Receita do transportador melhora. O ciclo do pesado se realimenta quando a macroeconomia destrava.
Quando não compensa entrar
Vamos ser honestos. Consórcio de pesado não é pra todo mundo.
Se você precisa do caminhão pra ontem porque o frete está contratado e o caminhão velho não aguenta mais, esquece consórcio. A contemplação pode demorar. Move Brasil 2 ou financiamento direto da concessionária resolvem melhor, mesmo custando mais. O custo do tempo perdido é maior que o juro pago.
Se a receita está incerta porque o cliente está renegociando dívida com o banco, segura o investimento. Consórcio é compromisso longo — entrar apertado vira problema na sexta parcela. E se você já está alavancado com outras parcelas, não soma mais uma. Quem entra apertado costuma cancelar antes de contemplar, e cancelamento em consórcio é um dos piores negócios financeiros que existem.
Pra entender melhor o trade-off, vale ler o comparativo entre consórcio e financiamento de caminhão pra pessoa jurídica com os números atualizados, e o panorama mais amplo de quando o consórcio de caminhão vale a pena.
Onde fazer a conta
Cada administradora tem taxa diferente, e dois pontos a mais ou a menos no plano todo viram R$ 10 a R$ 20 mil no custo final de uma carta de R$ 400 mil. Rode a conta no simulador de consórcio com as taxas reais que cada administradora oferecer pra você, não as do panfleto.
Quem está montando comparativo entre administradoras encontra a leitura completa em melhor consórcio de caminhão em 2026. Quem opera frete lê consórcio de caminhão pra frete. Pra produtor rural pensando em frota agrícola junto, o cruzamento com consórcio de máquina agrícola ajuda. E quem quer enxergar 2025 no agregado lê o resumo do Anuário ABAC 2026.
O autônomo que segurou em 2025 — como o Adilson — pode estar prestes a pagar mais caro daqui a dezoito meses, porque a fila volta. A frotista que entrou contracorrente — como a Cláudia — pode estar comprando barato. Quem entra agora, num mercado parado, vai estar pronto quando o mercado voltar. Esse é o trade-off real.
Perguntas frequentes
Por que o consórcio de veículos pesados caiu 15% em 2025?
A queda combinou três fatores: crise no agronegócio com inadimplência rural recorde de 11,4% e quase dois mil pedidos de recuperação judicial; retração das transportadoras com emplacamentos caindo cerca de 9% segundo a ANFAVEA; e juros altos com financiamento de caminhão pra pessoa jurídica beirando 28% ao ano. Menos gente entrou em grupos novos, mas o volume financeiro do segmento ainda cresceu porque quem entrou comprou cota mais cara.
O consórcio de caminhão ainda compensa em 2026?
Sim, pra quem pode esperar contemplação. Um caminhão de R$ 350 mil sai por perto de R$ 406 mil no consórcio em 72 meses, contra perto de R$ 540 mil no financiamento bancário PJ. Mesmo contra o Move Brasil 2 (BNDES a 11% ao ano), o consórcio segue cerca de R$ 38 mil mais barato. A desvantagem é o tempo de espera pela contemplação.
O Move Brasil 2 é melhor que o consórcio?
Depende da urgência. O Move Brasil 2 entrega o caminhão na hora com taxa de 11% a 12% ao ano e prazo de até 120 meses. O consórcio é mais barato no custo total mas exige contemplação por sorteio ou lance. Pra quem precisa rodar amanhã, Move Brasil ganha. Pra quem tem horizonte de doze a vinte e quatro meses, consórcio paga menos.
O agronegócio vai voltar a comprar caminhão em 2026?
A normalização do crédito rural deve levar mais um ano, segundo a CNA. Em 2026 o produtor ainda renegocia dívida. A retomada forte deve vir entre o fim de 2026 e 2027. Quem entra no consórcio agora estará pronto pra contemplar no momento em que a demanda voltar a aquecer.
Quanto custa a parcela de um consórcio de caminhão de R$ 350 mil?
Em 72 meses com taxa de administração diluída em torno de 16%, a parcela fica perto de R$ 5.600 (carta, taxa de administração e fundo de reserva). Em 60 meses sobe pra cerca de R$ 6.800. O seguro prestamista é opcional e pode somar de 1% a 3% no valor da parcela.
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