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Consórcio Explicado
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Com Selic a 14,75% e financiamento acima de 26% ao ano para carros, o consórcio virou refúgio de 12,85 milhões de brasileiros

Selic a 14,75% tornou o financiamento proibitivo. Consórcio cresceu 32% em 2025 e já tem 12,85 mi de participantes. Veja os números que explicam a migração.

Rodrigo Freitas

Rodrigo Freitas

Engenheiro (UNESP) · CPA-20 (ANBIMA) · Cofundador de fintech · 20+ anos em tecnologia financeira

Fachada do Banco Central do Brasil em Brasília com céu dramático e bandeira nacional ao entardecer
Desde setembro de 2024, o BC subiu a Selic sete vezes — e cada alta empurrou mais gente pro consórcio

Selic a 14,75%. Financiamento imobiliário a 11,19% ao ano na Caixa. Crédito veicular a 26,57% no mercado. Somando tudo, o brasileiro que financia um imóvel de R$ 400 mil paga R$ 828 mil — e quem financia um carro de R$ 80 mil desembolsa R$ 137,5 mil. A equação é simples: juros altos multiplicam o custo de qualquer compra parcelada. E é exatamente essa equação que explica por que o consórcio bateu todos os recordes em 2025 e já soma 12,85 milhões de participantes ativos em fevereiro de 2026.

O consórcio não surgiu porque o juro subiu. Existe desde 1962. Mas a Selic alta transformou o produto de nicho em alternativa de massa. Quem antes nem cogitava entrar num grupo agora faz as contas e percebe: pagar taxa de administração de 18% diluída em 180 meses sai R$ 338 mil mais barato que financiar o mesmo imóvel pelo SAC da Caixa. Essa diferença não é marketing — é aritmética.

O ciclo de alta que mudou o jogo

Quem acompanhou a Selic nos últimos dois anos viu uma montanha-russa com final amargo. Em maio de 2024, a taxa estava em 10,50% ao ano. O COPOM vinha de um ciclo de cortes — e parecia que o crédito ia baratear de vez.

Quatro meses depois, o cenário virou. Setembro de 2024: alta pra 10,75%. Novembro: 11,25%. Dezembro: 12,25%. O ano de 2025 trouxe mais pancada — janeiro levou a 13,25%, março a 14,25%, maio a 14,75%. Em junho, o COPOM cravou 15% ao ano e parou ali. A taxa ficou travada em 15% por seis meses, de junho de 2025 até janeiro de 2026. Quem assinou financiamento nesse período pagou o preço cheio.

Só em março de 2026, o COPOM fez o primeiro corte: 0,25 ponto, de 15% pra 14,75%. Corte tímido, unânime, e com um recado claro na ata: o BC “depende de novas informações para definir a trajetória de calibração da Selic”. Traduzindo do economês: não espere pressa.

O Boletim Focus de 14 de abril de 2026 projeta Selic de 12,50% no fim do ano. Mais de 2 pontos de queda — se tudo der certo. A próxima decisão do COPOM sai dia 29 de abril. O mercado debate entre novo corte de 0,25 p.p. ou manutenção em 14,75%. Ninguém espera aceleração pra 0,50 p.p. enquanto o IPCA projetado pra 2026 estiver em 4,71%, bem acima da meta de 3%.

Esses números importam porque definem o custo do crédito no país inteiro. Quando a Selic sobe, os bancos repassam pro financiamento. E o consórcio, que cobra taxa de administração fixa definida em contrato, não se move. A diferença entre os dois cresce a cada alta do COPOM.

O que os juros fazem com o financiamento

Vou ser específico. Um imóvel de R$ 400 mil financiado pela Caixa na taxa balcão de 11,19% ao ano, SAC, 300 meses, com 20% de entrada (R$ 80 mil): a primeira parcela é R$ 3.908. O total pago em 25 anos soma R$ 828 mil.

Desse total, R$ 508 mil são juros. Mais da metade do que você paga vai pro banco — não pro imóvel. Nos primeiros 60 meses, cerca de 70% de cada parcela é juro puro. Você entrega R$ 3.908 por mês e abate R$ 1.067 do saldo. O resto alimenta o spread bancário.

No consórcio do mesmo imóvel — R$ 400 mil, 180 meses, taxa de administração de 18%, fundo de reserva de 3%, seguro de 1,5% — o total é R$ 490 mil. Parcela de R$ 2.722. Zero vai a juros. Cada centavo reduz sua dívida com o grupo.

A diferença: R$ 338 mil. Com essa grana você compra um apartamento de dois quartos em cidade média, um carro zero, ou deixa rendendo na Selic por 10 anos. Rode os números exatos no comparador consórcio vs financiamento pra ver com o valor que você está planejando.

E se o financiamento é caro pra imóvel, pra carro é pior. A taxa média de crédito veicular chegou a 26,57% ao ano em março de 2026, segundo dados do Banco Central. Um carro de R$ 80 mil financiado em 60 parcelas Price sai por R$ 137,5 mil — R$ 57,5 mil de juros. No consórcio de 72 meses com taxa de 16%, o total é R$ 96,4 mil. Diferença de R$ 41 mil, que dá pra comprar outro carro popular. Use o simulador de financiamento pra conferir com a taxa do seu banco.

Comparação de custo total: consórcio R$ 490 mil vs financiamento SAC R$ 828 mil para imóvel de R$ 400 mil em 2026
Imóvel de R$ 400 mil: consórcio custa R$ 490 mil no total, financiamento SAC custa R$ 828 mil — diferença de R$ 338 mil (dados abr/2026)

12,85 milhões de brasileiros já fizeram essa conta

Os dados da ABAC (Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios) mostram o efeito direto da Selic alta no comportamento do consumidor.

Só em fevereiro de 2026, o sistema registrava 12,85 milhões de participantes ativos. Isso é 12,6% a mais que fevereiro de 2025 — mais de 1,4 milhão de pessoas novas em 12 meses. No bimestre janeiro-fevereiro foram 873 mil cotas vendidas e R$ 79,88 bilhões em créditos. O ticket médio: R$ 91,5 mil.

Pra dimensionar, o ano de 2025 inteiro bateu recorde. Foram 5,16 milhões de cotas vendidas e R$ 500 bilhões em créditos — alta de 32,1%. Outubro sozinho teve 518 mil adesões. Nunca um mês vendeu tanta cota. Imóveis puxou com 36,2% de crescimento, eletroeletrônicos surpreendeu com 51%. O único segmento que encolheu foi veículos pesados (-15%), prejudicado pela crise no agro.

Por que tanta gente migrou? Barbagallo, economista da ABAC, explicou numa matéria de abril de 2026: juro alto freia consumo e adia investimento — mas o consórcio escapa porque o custo dele é desconectado da Selic. A taxa de administração média está em 17,5%, enquanto o financiamento bancário passa de 20% ao ano em várias modalidades. Quem faz a conta de padaria percebe rápido qual pesa menos.

Barbagallo faz uma ressalva importante, porém. Selic alta sozinha não garante boom de consórcio. Olhando 19 anos pra trás, o sistema encolheu em quatro deles: 2007, 2013, 2014 e 2016. Em 2014, o juro estava em 11,65%. Em 2016, 13,65%. Mesmo com financiamento caro, as vendas de cota caíram. Por quê? Recessão. Brasileiro sem emprego não compra consórcio — nem financiamento, nem nada.

O que sustenta o boom de agora é uma combinação rara: juros altos com emprego forte. Desocupação de 5,1% no trimestre encerrado em dezembro de 2025 — menor da série histórica do IBGE desde 2012. Mais gente com carteira assinada e renda estável significa mais gente com fôlego pra bancar parcela de longo prazo.

A engrenagem que o Banco Central não controla

Pensa assim: consórcio funciona fora da lógica dos juros compostos. Não é crédito bancário. Ninguém no meio ganha spread sobre a sua parcela. A administradora organiza o grupo, cobra o que é dela (taxa de administração) e distribui as cartas de crédito conforme o bolo coletivo cresce. Cada parcela que o grupo paga alimenta o fundo comum — e desse fundo saem as contemplações.

Quando o COPOM sobe a Selic de 10,50% pra 15%, o financiamento fica proporcionalmente mais caro. Mas a taxa de administração do consórcio já estava definida no contrato — 16%, 18%, 22%, seja lá o que for. Ela não muda com decisão do Banco Central. Não muda com inflação. Não muda com câmbio.

O reajuste anual da parcela existe (INCC pra imóvel, FIPE pra veículo), mas tem natureza diferente dos juros: corrige o poder de compra da carta de crédito. Se o imóvel que custava R$ 400 mil passa a custar R$ 424 mil pelo INCC, a carta e a parcela sobem na mesma proporção. Você não está pagando mais — está acompanhando o preço do bem. No financiamento, o juro é custo puro que vai pro banco.

Essa diferença estrutural é o que faz o consórcio brilhar quando a Selic sobe. Não porque ele fica mais barato — fica igual. Mas porque o financiamento fica absurdamente mais caro, e a distância entre os dois se abre como tesoura.

Um dado que ilustra: entre setembro de 2024 (Selic 10,50%) e junho de 2025 (Selic 15%), a diferença de custo total entre consórcio e financiamento imobiliário SAC pra um imóvel de R$ 400 mil saltou de R$ 240 mil pra R$ 338 mil. Quase R$ 100 mil de diferença a mais em nove meses — sem que o consórcio mudasse nada nas suas taxas.

Gráfico mostrando evolução da diferença de custo total entre financiamento e consórcio imobiliário conforme a Selic subiu de 10,50% em maio de 2024 para 14,75% em abril de 2026
A cada alta da Selic, a diferença de custo entre financiamento e consórcio se abre — de R$ 240 mil a R$ 338 mil em menos de 2 anos (cálculos com fórmulas do site)

81,7 milhões de inadimplentes e a fuga dos juros

O cenário macro reforça o movimento. Segundo a Serasa, 81,7 milhões de brasileiros estavam inadimplentes em março de 2026 — quase metade da população adulta. São R$ 539 bilhões em dívidas, com a participação dos bancos no endividamento saltando de 32,7% em 2016 pra 47,1% em 2026.

Cartão de crédito e crédito rotativo são os maiores vilões. Mas o financiamento de longo prazo também pesa: quem assinou um crédito imobiliário em 2025 com juros a 13% está preso por 25-30 anos nessa taxa. O consórcio, ao eliminar juros da equação, atrai justamente quem não quer entrar nessa armadilha.

O endividamento das famílias brasileiras chegou a 49,7% da renda no final de 2025, segundo o Banco Central. Quase metade do salário comprometido com dívidas. Nesse contexto, a parcela do consórcio — previsível, sem juros, definida no contrato — oferece algo que o financiamento não consegue: previsibilidade de custo. Você sabe exatamente quanto vai pagar do primeiro ao último mês (descontando o reajuste anual pelo índice do bem).

E quando a Selic cair?

O Focus projeta 12,50% pro fim de 2026. Se acontecer, serão mais de 2 pontos percentuais de queda. A pergunta é: o consórcio perde atratividade?

A resposta curta: perde um pouco, mas não o suficiente pra inverter a conta.

Fiz a simulação. Com Selic a 12,50%, a taxa de financiamento imobiliário SAC da Caixa cairia pra faixa de 9,5%-10% (historicamente, os bancos repassam com lag de 3-6 meses). Nesse cenário, o total pago no financiamento do imóvel de R$ 400 mil com 20% de entrada cairia de R$ 828 mil pra cerca de R$ 770 mil. O consórcio continuaria em R$ 490 mil. A diferença encolhe de R$ 338 mil pra R$ 280 mil — diminui, mas continua sendo o preço de um carro zero.

Pra carro, a dinâmica é parecida. Mesmo que o crédito veicular caia pra 22% ao ano, o total do financiamento de R$ 80 mil em 60 meses ficaria em R$ 128 mil contra R$ 96,4 mil do consórcio. Diferença de R$ 31 mil — menor que os R$ 41 mil atuais, mas relevante.

O consórcio só perde a vantagem decisiva quando a Selic cai abaixo de 8-9% e o financiamento imobiliário volta pra casa de 7-8% ao ano. Isso não acontece desde 2020 — e o mercado não projeta isso nem pra 2028.

Se você quer aproveitar a janela de máxima vantagem do consórcio sobre o financiamento, o momento é entre agora e o fim de 2026. Confira o comparativo detalhado consórcio vs financiamento com simulações atualizadas. E pra imóvel especificamente, o artigo sobre consórcio ou financiamento de imóvel traz três cenários práticos com FGTS e lance.

Quem ganha e quem perde com Selic alta

Nem todo mundo se beneficia. A Selic alta é boa pra quem tem dinheiro parado na renda fixa — CDB a 14,65% líquido, Tesouro Selic rendendo 7% real acima da inflação. É o melhor momento em 20 anos pra investidor conservador.

Pra quem precisa de crédito, é o oposto. Financiamento imobiliário está 30-40% mais caro que em 2021. Crédito veicular cobra juro que transformaria o valor do carro em dois carros se você parcelasse em 60 meses. Empréstimo pessoal roda acima de 40% ao ano. Cartão de crédito, acima de 400%.

O consórcio ocupa um espaço intermediário: não é investimento (não rende), não é crédito (não cobra juro). É um mecanismo de compra programada. E num ambiente onde tomar crédito dói no bolso, a opção sem juros fica desproporcionalmente atrativa.

Paulo Roberto Rossi, presidente-executivo da ABAC, sintetizou na matéria de abril: mesmo com desaceleração econômica afetando alguns setores, os indicadores do consórcio mostraram bons avanços. O sistema não cresce apesar dos juros altos — cresce por causa dos juros altos.

Mas tem um risco que pouca gente discute. Se o COPOM reduzir a Selic rápido demais e a economia aquecer, o financiamento volta a competir. As administradoras de consórcio podem responder subindo taxas de administração — e a vantagem atual de custo encolhe. Quem está pensando em entrar, a janela é agora.

Quer entender como o consórcio funciona na prática antes de assinar? Comece pelo artigo sobre crescimento do consórcio em 2026 pra ver os recordes, ou rode uma simulação na calculadora de consórcio.

Perguntas frequentes

A Selic alta é boa pro consórcio?

Sim, indiretamente. A Selic alta encarece o financiamento (juros compostos sobre saldo devedor), enquanto o consórcio cobra taxa de administração fixa que não muda com a Selic. Em abril de 2026, a diferença de custo total entre financiamento SAC e consórcio pra um imóvel de R$ 400 mil é de R$ 338 mil.

Qual a Selic em abril de 2026?

14,75% ao ano. O COPOM cortou de 15% pra 14,75% em março de 2026 — o primeiro corte desde maio de 2024. A próxima decisão sai dia 29 de abril. O Boletim Focus projeta 12,50% no fim do ano.

O consórcio vai ficar menos vantajoso quando a Selic cair?

A vantagem diminui, mas não desaparece. Mesmo com Selic a 12,50% (projeção Focus para fim de 2026), a diferença de custo total entre financiamento e consórcio de imóvel ainda seria de cerca de R$ 280 mil. O consórcio só perderia a vantagem decisiva com Selic abaixo de 8-9%.

Quantas pessoas participam de consórcio no Brasil?

Em fevereiro de 2026 eram 12,85 milhões de participantes ativos, segundo a ABAC. Crescimento de 12,6% sobre fevereiro de 2025. O número bateu recorde histórico e continua subindo.

O financiamento de carro é mais caro que o de imóvel?

Muito mais. A taxa média de financiamento veicular é de 26,57% ao ano (BACEN, mar/2026), enquanto o imobiliário da Caixa vai de 10,26% a 11,19%. Um carro de R$ 80 mil financiado em 60 meses Price custa R$ 137,5 mil no total — 72% a mais que o valor à vista.

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